MD Networking: Março 2020

Show de Horrores


Marisa Fonseca Diniz




Há pouco mais de um ano venho tentando me recolocar no mercado de trabalho brasileiro, no entanto, muitas vezes paro e penso, se o problema no país se restringe apenas a situação econômica e política, pois a cada busca me deparo com um show de horrores que acontece nas plataformas de emprego e nas redes profissionais, que põe em cheque a capacidade de quem publica as oportunidades de emprego.

Empresas e profissionais de recursos humanos publicam vagas de emprego sem saber ao certo o que procuram, outros usam as plataformas apenas para saber como está o currículo dos profissionais desempregados e há aqueles que vão mais longe, publicam vagas com nomes bonitos em português e inglês e com experiências que não condizem com a formação que solicitam.

O que me faz pensar o quanto o mercado de profissionais empregados está caótico em comparação as publicações, não apenas de vagas de emprego, como também dos assuntos que escrevem nestas mesmas plataformas. Tudo parece lindo e maravilhoso se compararmos com as histórias da carochinha contadas na fase infantil de cada um de nós, que busca uma nova recolocação.

Nas redes profissionais, por exemplo, os indivíduos desempregados precisam estar com a autoestima bem equilibrada para não caírem nas propostas indecorosas que empresários conhecidos como “influencers” dão em referência a falta de emprego. É uma receita melhor do que a outra, onde a vítima se torna ré em poucas palavras:

Ø Torne-se empresário e ganhe seu primeiro milhão nos 6 primeiros meses de trabalho;

Ø Você está fazendo errado, está desempregado porque não está se esforçando;

Ø Trabalhe de graça para que o empregador saiba que você é um profissional dedicado;

Ø Livre-se das amarras do seu chefe e venha trabalhar comigo, vai trabalhar como nunca pensou antes. Eu vou te passar um zap às duas horas da manhã, vamos fazer reunião às onze da noite e aos sábados e domingos você vai trabalhar como nunca sonhou antes;

Ø Sucesso só acontece para aqueles que estão disponíveis 24 horas por dia para trabalhar.

Entre outras barbaridades que encontramos por aí, e que pasme, é aplaudida por diversas pessoas, não sei se inocentes ou manipuladas.

É realmente preocupante, quando nos deparamos com sugestões camufladas de escravidão profissional por empreendedores que fazem disso um mercado rentável da enganação, em pleno século XXI, quando deveriam estar se adaptando as novas tecnologias e processos da Revolução Industrial 5.0. O que faz pensar que o desespero é tanto, que qualquer promessa vazia de conquistar novos seguidores e manipular o pensamento alheio os fará encher os bolsos de dinheiro de maneira fácil, o que pode não acontecer nos próximos anos com a transformação galopante do mercado.

O fato é que, em épocas de recessão econômica o que mais se encontra dentro das empresas, em sua maioria, é profissional despreparado, medíocre e abusivo. Lembro-me de um caso recente em que um amigo estava em busca de uma oportunidade de emprego, depois de meses conseguiu se recolocar em uma grande empresa de infraestrutura, em um primeiro momento pensou que poderia ampliar seus conhecimentos compartilhando sua experiência com os demais, além de poder ser promovido. No entanto, com o passar do tempo foi percebendo que a empresa tão amada por aqueles que não trabalhavam lá, não era o que parecia ser.

A diretoria tinha um pensamento bem retrógrado em questões de promoções de funcionários, ainda mantinham o pensamento familiar de anos atrás, em que só é promovido o amigo do amigo do dono, mesmo que o indivíduo não tenha capacidade para gerir absolutamente nada. E com isso uma sequência de erros era promovida dentro da empresa, gerentes e coordenadores em sua maioria era indicado aos cargos, não por mérito, e sim por bajulação, algo tão recorrente nas empresas nos dias atuais.

O ambiente de trabalho era sufocante principalmente porque quem estava nos cargos superiores pouco se importavam com os problemas dos departamentos, estavam mais interessados em viajar sem propósito, iam às reuniões de negócios sem saber ao menos o que iria ser conversado, além da maioria da chefia ser tóxica, esfolavam os funcionários e os desrespeitavam sem ter a mínima noção do que era gestão.



Não é à toa que muitos profissionais se demitem das empresas mais por causa da chefia tóxica, do que pelo trabalho executado ou pela empresa propriamente dita. Quanto mais tóxico for um chefe, maior será o salário, e consequentemente menos eficiente ele será, isso é um fato. Claro, que este meu amigo preferiu ficar desempregado a ficar doente dentro daquele ambiente carregado de sugadores de energia.

A empresa que tem como política interna a indicação de profissionais, em geral, incompetentes, tem processos burocráticos que empacam o crescimento profissional dos funcionários, pois é avessa a inovação, a chefia é resistente e consequentemente tem medo de perder o cargo e o alto salário para alguém mais jovem, que possui novos pensamentos, ideias e tem fome de crescimento profissional.

Muitas dessas empresas são as mesmas que pregam em sua cultura organizacional a inovação como porta aberta para novos funcionários, de preferência jovens, no entanto, são as mesmas que empacam o crescimento deles, apenas com o interesse único de se aproveitar, mesmo que momentaneamente, da mão de obra barata e disponível, o que denota uma política interna semelhante aos mecanismos de trabalho de funcionários públicos, onde centenas de funcionários sem ambição ficam no mesmo cargo por anos e são premiados por suas chefias por este feito, ou seja, trabalhar em uma empresa dessas é viver constantemente no passado, mesmo quando ela é afamada no mercado de negócios.

Agora imagine se uma empresa, que tenha uma mentalidade como essa decida buscar um profissional no mercado de trabalho sem saber exatamente quais experiências solicitar, e muito menos qual a função que o candidato poderá executar?

É nesse ponto que volto ao assunto inicial deste artigo, quando falamos em busca de uma nova oportunidade na careira, sempre fica aquela dúvida se conseguiremos encontrar algo que nos valorize como profissional, ao mesmo tempo, que teremos a chance de crescer dentro da empresa, ser promovido, e não termos impedimentos quanto à idade, cor da pele, opção sexual ou classe social, por exemplo, algo tão recorrente nas avaliações curriculares nos dias atuais.

Garimpar uma boa oportunidade atualmente é como tentar encontrar uma agulha no palheiro, principalmente quando há consciência de que tempo é dinheiro, e o que menos podemos fazer é perder tempo. Muitas vagas publicadas em plataformas de emprego não tem o nome da empresa, o salário, em geral a função solicitada no título não é a mesma da descrição, pede-se uma série de formações e experiências, mas o salário a ser pago não condiz com a responsabilidade, além de outros absurdos como classificar cursos de humanas como sendo da área de exatas, um verdadeiro show de desconhecimento total da área, função, responsabilidade, etc. 


Pensando neste quesito, decidi colocar alguns exemplos de vagas que atrapalham muito o dia-a-dia de quem busca uma nova oportunidade de trabalho no mercado nacional. Começaremos com as vagas de Diretor Geral com salários irrisórios e descrições que não condizem com a vaga e outros chamarizes:












Estes são apenas alguns exemplos de vagas de emprego que encontramos no mercado de trabalho atualmente, indiferente da área de atuação, perdemos tempo e a última coisa que nos resta, além de suportar a falta de dinheiro e as cobranças familiares é rir dessas vagas esdrúxulas, por favor nos poupem!

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