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Rodovias ecológicas, a favor do meio ambiente


Marisa Fonseca Diniz



O setor que mais polui o meio ambiente é a construção civil, sendo responsável pelo consumo de quase 75% de toda matéria-prima produzida no mundo, sendo que cada ser humano é responsável por produzir 500 quilos de entulho, o equivalente a 3,5 milhões de toneladas por ano.

O entulho gerado pela construção é composto de praticamente restos e fragmentos de materiais de obra, tais como gesso, asfalto, amianto, madeira, papel, plástico, ferros, entre outros, que são passíveis de serem reciclados e até mesmo reaproveitados. A reciclagem desse material é feita em três etapas, a saber: triagem, trituração e classificação dos materiais.

O pneu que compõe os veículos motorizados é outro produto que demora 600 anos para se decompor na natureza, e que assim como o entulho pode ser reaproveitado e reciclado. No Brasil são mais de 450 mil toneladas de pneus descartados todo ano, já no mundo são produzidos a cada ano mais 1,6 bilhões de pneus novos e cerca de 1 bilhão de pneus usados são descartados, no entanto apenas 100 milhões de pneus são reciclados, o que faz com que muitos pneus continuam sendo abandonados no meio ambiente sem um destino certo.



Pensando nisso, uma equipe de pesquisadores liderados por Mohammad Boroujeni da RMIT University, em Melbourne, na Austrália desenvolveu uma pesquisa única no mundo em que combina restos de entulho de construção e borrachas recicladas, que são otimizadas para atender os padrões de segurança da engenharia rodoviária.

Esta mistura foi projetada para ser utilizada nas camadas de base do asfalto por ser uma mistura mais flexível que os atuais materiais padrões utilizados, o interessante é que este tipo de material além de trazer benefícios ambientais, também colabora com a engenharia, uma vez que, proporciona menos rachaduras nas rodovias.

Para o pesquisador chefe desta pesquisa, esta mistura é uma alternativa 100% reciclada que oferece um produto mais sustentável por reaproveitar pneus e resíduos de construção fornecendo maior flexibilidade e resistência às estradas e rodovias, diferente da brita e areia utilizada como base das rodovias australianas, que são insustentáveis por serem materiais extraídos da natureza.



Segundo os pesquisadores, as estradas são feitas de quatro camadas: subleito, base, sub-base e asfalto. Todas as camadas devem ser fortes e resistentes para suportar as pressões dos veículos pesados, e flexíveis o suficiente para permitir a quantidade certa de movimento para que não deforme ou apareçam facilmente rachaduras.

RCA, como é chamado esta mistura, pode ser utilizado sozinho como camada base, testes feitos na RMIT School of Engineering comprovaram que esta mistura de entulho e borracha tem melhor resistência contra ácidos, água, estresse das vias, deformação do asfalto, além de possuir mais força e dinamismo, pois há baixa contração e uma excelente flexibilidade que reduz os riscos de rachadura do asfalto.

A equipe identificou que a proporção para que esta mistura dê bons resultados é de 0,5% de borracha fina para 99,5% de RCA, a fim de proporcionar resistência ao cisalhamento (física), mantendo uma boa coesão entre os dois materiais. Cisalhamento é o fenômeno de deformação ao qual um corpo está sujeito quando as forças que sobre ele agem provocam um deslocamento em planos diferentes, mantendo o volume constante.

Que logo possamos ter este produto comercializado no mercado mundial, a fim de que todos possam se beneficiar colaborando com a preservação do meio ambiente, do mesmo modo que alguns asfaltos ecológicos já existentes no mercado fazem como é o caso do bioasfalto.

(Fonte de referência: RMIT University - ScienceDirect - An experimental study on the shear behaviour of recycled concrete aggregate incorporating recycled tyre waste. Construction and Building Materials, 2020)

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Nem tudo está perdido...


Marisa Fonseca Diniz



A vida nem sempre pode ser baseada em momentos fugazes, principalmente durante uma pandemia, seja ela por um vírus mortal ou por uma situação que foge a normalidade diária. Muitas pessoas necessitam de contato direto com outras pessoas para se sentirem confortadas em sua vida, seja um familiar, um amigo ou um companheiro de trabalho, não importa, a necessidade de ser agraciada por um abraço, uma conversa despretensiosa faz toda a diferença na vida de muitos indivíduos.

De alguns anos para cá, a quantidade de pessoas que moram sozinhas mais que dobrou em todo mundo, só nos Estados Unidos, por exemplo, 34 milhões de pessoas moram sozinhas, no Brasil são 30 milhões de pessoas que estão nesta mesma situação. A família unipessoal é uma realidade dos tempos contemporâneos, infelizmente ainda há muitas pessoas que desconhecem este conceito de família e equivocadamente acreditam que quem vive sozinho é uma pessoa solitária.

Não obstante, nem todas as pessoas que vivem sozinhas de fato optaram em viver dessa maneira, os indivíduos acima dos 60 anos em geral acabam perdendo seus cônjuges ou parceiros e consequentemente adotam este novo estilo de vida, principalmente quando eles possuem uma situação financeira que os beneficiem em ter uma vida mais confortável. Diferentemente das pessoas que estão em situação de maior vulnerabilidade financeira, que acabam ficando sem opção e vão morar com os filhos ou vão morar em casas de repouso.




Os jovens por sua vez, estão cada dia saindo mais tarde da casa dos pais por diversos fatores, falta de emprego e oportunidades ou dependência financeira, no entanto, há ainda aqueles que são favorecidos financeiramente e optam por morar sozinhos nas grandes cidades ao redor do mundo para desenvolver suas atividades profissionais ou estudar. Para estes indivíduos viver sozinho é uma opção muito agradável e adaptável à nova realidade dos tempos atuais.

O advento do coronavírus que aconteceu no mundo todo, fez com que muitos governos aconselhassem que idosos e portadores de  doenças crônicas ficassem dentro de seus lares, longe de amigos e familiares para evitar que fossem contaminados pelo vírus. No entanto, alguns cientistas sociais americanos ficaram preocupados com este isolamento acreditando que uma nova pandemia pudesse surgir, a da solidão. A solidão é um sentimento no qual uma pessoa pode ter uma profunda sensação de vazio e isolamento, no entanto, este acontecimento pode acontecer com pessoas que vivem rodeadas por outras pessoas também, e não apenas naquelas que vivem sozinhas.

Um estudo recentemente publicado na Revista American Psychologist  com o objetivo de medir a solidão neste tempo de quarentena constatou justamente o contrário. Uma equipe de pesquisadores liderados pela professora associada de ciências comportamentais Angelina Sutin da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual da Flórida analisaram o comportamento de 1500 americanos entre 18 a 98 anos no período de janeiro a abril.

A pesquisa tinha como objetivo analisar como a solidão poderia influenciar a saúde psicológica e física dos participantes. Os participantes da pesquisa preencheram um questionário pelo computador sobre como eles se sentiam sozinhos ou isolados, se tinham pessoas a quem recorrer e se tinham doenças preexistentes.

O questionário apresentava uma escala de 1 a 3, onde 1 era pouco solitário e 3 muito solitário, a pontuação foi de 1,69 na primeira pesquisa, 1,71 na segunda e 1,71 na terceira, ou seja, no período de uma pesquisa para outra, não houve uma estatística significante.  

Dentro deste parâmetro percebeu-se que algumas pessoas relataram que eram recém-solitárias e outras se sentiram menos solitárias ao longo do tempo. Os pesquisadores relataram que não encontraram diferenças raciais nas respostas, mas que, no entanto fizeram uma análise etária e descobriram que as pessoas com 65 anos ou mais tendem a ser mais solitárias do que aqueles que estão na faixa dos 18 a 64 anos.Em termos percentuais, a prevalência da solidão entre as pessoas com 65 anos a mais passou de 16%  na primeira entrevista para 21% na segunda e depois caiu para 18% na terceira.

Uma carta de pesquisa publicada no Jornal da Associação Médica Americana - JAMA em junho por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins citaram a pesquisa nacional realizada entre abril e maio de 2018, antes da pandemia, em que 11% dos americanos relataram que se sentiam sozinhos. Pesquisadores da própria universidade elaborou sua própria pesquisa nacional em abril de 2019 com outros participantes e constataram que 13,8% dos entrevistados disseram se sentir um pouco sozinhos.



Em plena pandemia do coronavírus há outras duas pesquisas em andamento, a primeira liderada pelo psicólogo Jonathan Kanter da Universidade de Washington. Nesta pesquisa, os pesquisadores enviam mensagens de texto pelo celular para as pessoas de Seattle e outras regiões dos Estados Unidos pedindo-lhes que preencham um questionário que inclui quanto de interação social eles tiveram naquele dia, se sentiram compreendidos ou cuidados por outras pessoas e se gostavam de ficar sozinhos.

Psicólogos dizem que a relação do estudo da solidão com o uso das mídias sociais por adolescentes e adultos podem acarretar sintomas de depressão e ansiedade associado a problemas físicos como dores de cabeça e falta de ar, por exemplo, como sendo uma resposta à pressão social. E que isso não acontece quando estão em contato com familiares. Os altos índices de solidão antes da pandemia não são dados satisfatórios, por isso há a necessidade de pesquisas constantes durante a pandemia, a fim de saber até que ponto isso pode interferir na saúde mental das pessoas.

Outros estudos indicam que o isolamento social crônico pode trazer consequências negativas até mesmo para pessoas saudáveis como o aumento de desenvolver uma doença coronária. De certa maneira todos os estudos evidenciam que pessoas acima dos 60 anos de idade, quando isoladas por um período longo podem desenvolver um risco acentuado de demência, enquanto que pessoas que sofrem com a solidão têm até quatro vezes mais risco de morrer.

O pesquisador Oliver Hamming do Instituto de Epidemiologia, Bioestatística e Prevenção da Universidade de Zurique publicou em agosto de 2019 um artigo na revista Plons One, onde relatava que pessoas socialmente isoladas, independente da idade tendem a apresentar comportamentos pouco saudáveis, ou seja, o isolamento pode ser muito prejudicial a determinados grupos de pessoas, tais como idosos, crianças, adolescentes, pessoas com transtornos mentais, além de profissionais da área da saúde, nos quais podemos notar que, durante a pandemia tem sido as mais acometidas pelo coronavírus, sendo que muitas nem conseguem sobreviver.



O ser humano por si só é um ser sociável, sendo o isolamento muitas vezes prejudicial à maioria dos indivíduos que não estão acostumados a viver muito tempo sozinho. Um projeto de atendimento online baseado na experiência de outros países foi criado no Brasil para que pessoas que se sentem sozinhas e isoladas durante a pandemia possam ter apoio emocional.

Nem tudo está perdido e esta pandemia vai passar, com certeza ficaremos seres mais fortes e melhores com estas experiências!

(Fontes de Referência de Pesquisa - Sites: npr.org , ourworldindata.org, self.inc, e revistapesquisa.fapesp.br)

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Impacto voraz das oscilações marítimas


Marisa Fonseca Diniz

Quando falamos em algo voraz sempre temos em mente situações perigosas ou ferozes, no entanto, o propósito deste artigo é na verdade abrir uma página para o conhecimento ambiental, que muitas pessoas desconhecem como é o caso das ondas marítimas.
Não ondas comuns e sim aquelas, que quando encontramos pela frente podem nos colocar em situações de perigo extremo. No entanto, não podemos deixar de falar sobre o que são e como elas se formam, necessitando um pouco de conhecimento em física para um bom entendimento sobre o assunto.
Aprendemos desde pequenos que as ondas se formam a partir do sopro dos ventos na superfície do mar, ou seja, o vento quando bate na água causa uma ondulação de 1 a 2 cm que são as ondas conhecidas como capilares.


Quanto mais forte e duradouro for o vento, maior será a altura da onda. As ondas são compostas basicamente por crista, cavado (ou cava) e a rebentação. A crista como se pode imaginar é a parte mais alta da onda, o cavado é a base da estrutura que sustenta a onda e a área de rebentação é onde a onda se quebra.



É interessante observar que à medida que a onda vai percorrendo a superfície do mar em direção à costa, a crista vai ficando cada vez mais alta e o cavado cada vez mais perto da areia. Em um determinado momento, a onda perde o equilíbrio e quebra por cima do cavado, podendo quebrar na área de rebentação de diversas maneiras.

China Beach – San Francisco, CA

Há duas formas de rebentação, a mergulhante e a deslizante. A mergulhante se quebra e forma os famosos tubos d’água e as deslizantes acontecem em locais rasos. Para um melhor entendimento as ondas deslizantes são aquelas que quebram gradativamente e suavemente antes de chegar mais perto da costa.


Algumas das ondas mais perigosas no mundo são as seguintes:

Cyclops


Este tipo de onda acontece em águas abertas na parte oeste da Austrália Ocidental. Consideradas as ondas mais violentas do planeta, possui um formato diferente das demais, sendo consideradas muito perigosas para os surfistas que se aventuram a pegá-las. Estas ondas são imensas e tendem a empurrar os surfistas para os corais no fundo do mar.

Teahupoo


Este tipo de onda ocorre no Taiti, apesar de ser adorada pelos surfistas é também uma das mais temidas no mundo. A localização geográfica privilegiada do Taiti proporciona que ondas gigantes sejam formadas entre o Circulo Polar Antártico, o sul da Austrália e a Nova Zelândia. A ilha de origem vulcânica é sedimentada em todo o seu entorno por corais, que deixam a água cristalina e com uma cor azul turquesa maravilhosa.

No entanto, a beleza dessa água pode ocultar certos perigos para os surfistas, uma vez que este tipo de onda é formada através da rápida transição das águas profundas com as rasas, não permitindo que a onda perca energia antes de encontrar a plataforma de coral na qual ela se quebra.


Essa variação abrupta e a profundidade tende a transformar toda a energia gerada pelos ventos extremos a milhares de quilômetros de distância em tubos perfeitos, ou seja, por trás de toda há uma voracidade que pode ser fatal para quem se habilita enfrentá-la sem ter preparo algum.



Shipsterns Bluff



Este tipo de onda acontece na Tasmânia, próximo à Austrália, mais conhecida como Devil's Point, o mais interessante neste tipo de onda é que ela acontece em uma região infestada por tubarões. Cair de uma onda dessas é correr o risco de ser mordido por um dos maiores predador dos mares.

Dungeons


Este tipo de onda acontece no Oceano Atlântico na ponta da África do Sul podendo ter até 15 metros de altura, o bom é que elas não se quebram em cima dos bancos de corais, mas a água congelante do oceano é infestada de tubarões.

Banzai Pipeline


Banzai Pipeline ou simplesmente Pipe, ocorre em Oahu no Havaí,  uma zona de surf internacionalmente conhecida por suas ondas tubulares e perfeitas, que podem ultrapassar os 3 metros de altura.

Este tipo de onda é considerada muito perigosa para os surfistas, simplesmente porque ela quebra no fundo raso onde há pedras, o que pode causar diversas lesões e até mortes para quem se aventura por lá.

Nazaré


As temidas ondas gigantes de Nazaré em Portugal ficaram famosas no ano de 2011, quando o surfista Garrett Mcnamara surfou uma onda de 23,8 metros de altura, entrando dessa maneira para o Guiness Book, mais tarde este recorde foi quebrado outras duas vezes.

A formação das ondas nesta região é bem interessante de se conhecer, pois o promontório de Nazaré é uma região dividida em praia do sul e do norte, que é uma enorme falha submersa que se aproxima 500 metros da costa, interessante saber que este local é muito visitado pelos turistas devido o famoso farol onde se encontra o Canhão de Nazaré.




A região entre a falha e o promontório desenha um fenômeno geomorfológico raro, em que a água é engolida pelo cânion subaquático no decorrer de seus 211 km de extensão encontrando a parte do oceano próximo à costa da praia do norte, onde os  ventos fortes formam as grande ondas de Nazaré.

A natureza é maravilhosa, no entanto, cabe a cada um de nós não enfureça-la, pois vimos neste artigo que ventos extremos podem formar ondas perigosíssimas para quem se aventura a enfrentá-las.

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A glamorização da loucura na Idade Contemporânea


Marisa Fonseca Diniz



Nunca se viu tanto glamour em torno de certas patologias psiquiátricas como nos tempos atuais, o que deveria ser tratado como doença, muitas vezes é visto como algo glorioso, o que não faz o menor sentido quando analisamos o conceito da loucura.

A loucura acompanha o ser humano ao longo da história, na Idade Média, por exemplo, a loucura era vista como uma experiência pessoal, apesar da igreja considerar uma espécie de possessão demoníaca, já no século XV, a loucura era vinculada à bruxaria e durante a Renascença foi associada à razão.

O filósofo francês Voltaire define a loucura como uma doença do cérebro que impede o homem de pensar e agir como os demais seres humanos. “Se ele não pode cuidar de sua propriedade, ele é posto sobtutela; se a sua conduta é inaceitável, ele é isolado; se for perigoso, ele é confinado; tornando-se furioso, ele é amarrado.” O filósofo alemão Hegel definia a loucura como “um simples desarranjo, uma simples contradição no interior da razão, que continua presente.”

Nos séculos seguintes, a loucura ganhou uma nova conotação, passando a ser considerada como um desvio de norma, sendo os loucos encarcerados exclusivamente em asilos. Entre os séculos XIX e XX, considerando a teoria do inconsciente de Sigmund Freud, a loucura deixou de ser tratada como algo incompreensível  tornando-se uma expressão carregada de sentido.

Psiquiatricamente, a loucura é considerada uma doença que pode ter origem na genética, pode ser psicológica, social e física. Sendo assim, podemos dizer que a loucura reúne todas as doenças, que possuem manifestações psicóticas, como a esquizofrenia, as psicoses, as doenças mentais como as neuroses, psicopatias e as oligofrenias.

Segundo o sociólogo Lévy Bruhl, a loucura é um problema social do homem em relação ao seu convívio com a sociedade, já para Franco Basaglia pode ser considerada um problema político, uma vez que, o hospício é construído para controlar e reprimir trabalhadores que perderam a capacidade de responder pelos seus interesses capitalistas de produção. Neste caso, concluímos que louco não é aquele que tem definição clínica, e sim aquele que não é capaz de produzir algo, o que abala os interesses e as convicções da sociedade da qual pertence. Do mesmo modo não se considera louco, aquela pessoa que continua produzindo, mesmo quando é considerada doente segundo a definição clínica.

É interessante ressaltar que a partir do século XX, o número de manicômios mais que dobraram a sua capacidade, apesar destes locais serem considerados insalubres aos portadores de doenças psiquiátricas, devido aos maus tratos, uma vez que, os pacientes viviam isolados da sociedade, eram abandonados pelos familiares e pelos órgãos de saúde, além de não haver alimentação adequada e a hospedagem ser completamente precária, agravando o problema  de maneira progressiva  ao longo das décadas.

Durante o século XX, o médico e psiquiatra italiano Franco Basaglia acabou sendo o precursor do movimento da reforma psiquiátrica, que ficou conhecida como Psiquiatria Democrática, pois criticava a postura tradicional de como a loucura era tratada pelos médicos, onde a internação e o isolamento eram considerados como o melhor modelo existente até então.



No entanto, após a leitura do livro “História da Loucura na Idade Clássica” do filósofo francês Michael Foucault, o médico Basaglia fundamentou a negação da psiquiatria como sendo um discurso e uma prática hegemônica sobre o que era de fato a loucura, pois em seu entender, a psiquiatria sozinha não era capaz de entender a complexidade da loucura.

Em 1961 ao assumir a direção do Hospital Psiquiátrico Gorizia, Basaglia iniciou mudanças com o objetivo de transformar o local em uma comunidade terapêutica, a fim de haver um tratamento mais humanizado aos internos. No entanto, com o tempo foi percebido que apenas o tratamento humanizado não era suficiente, uma vez que as condições de miserabilidade do hospital necessitavam de transformações profundas tanto no nível da assistência psiquiátrica  como nas relações entre a sociedade e a loucura.

No ano de 1970, Basaglia assumiu a diretoria do Hospital Provincial da cidade de Trieste iniciando dessa maneira o processo de fechamento do hospital psiquiátrico, substituindo-o por uma rede de atendimento mais humanizado com serviços comunitários, emergências psiquiátricas, um hospital geral, cooperativas de trabalho protegido, centros de convivência e moradias assistidas para os loucos.

A organização Mundial de Saúde, OMS, credenciou o Serviço Psiquiátrico de Trieste no ano de 1973 como sendo referência mundial para a reformulação da assistência em saúde mental. No ano de 1978 foi aprovado na Itália a Lei da Reforma Psiquiátrica Italiana conhecida pela Lei 180 ou Lei de Basaglia reconhecendo o tratamento humanizado de grupos-apartamento para os loucos. (Referência: AMARANTE, Paulo. O Homem e a Serpente: outras histórias para a loucura e a psiquiatria)

Em alguns países, como o Brasil, por exemplo, a loucura era vista como um mau que deveria ser combatido de qualquer maneira, mesmo que perversamente. Nem sempre as pessoas, que eram internadas nos manicômios por seus familiares ou pelas autoridades de segurança pública eram de fato portadoras de alguma doença mental ou possuem algum transtorno psiquiátrico.

Essa afirmação é confirmada pelos registros nos hospitais psiquiátricos do século XX, onde a maioria dos pacientes não tinha qualquer histórico de demência, sendo internadas apenas por serem “pessoas não agradáveis e incômodas”, ou seja, bastavam ter opiniões políticas e sociais diferentes dos demais para serem enviadas ao manicômio. A família que deveria proteger seus filhos e agregados era a mesma que no auge da sua ignorância e do puro narcisismo condenava os indesejados a terem uma vida deprimente de total falta de dignidade e liberdade nestes complexos hospitalares do terror.

A sociedade em si pouco se importava com as atrocidades que eram cometidas por detrás dos muros dos manicômios, mesmo tendo ciência de que a maldade não curava ninguém. Não é a toa que vários hospitais psiquiátricos no Brasil eram considerados mais campos de concentração do que um hospital de reabilitação, como é ocaso do Hospital Colônia de Barbacena, onde aqui faço um breve relato do que acontecia no local.

“Fundado em 12 de outubro de 1903 na cidade de Barbacena, Minas Gerais, o Hospital Colônia foi referência no tratamento psiquiátrico da época, onde diversas famílias encaminhavam seus indesejados e desajustados para que pudessem ser tratados no manicômio. No entanto, com o tempo a cidade de Barbacena ficou conhecida como a Cidade dos Loucos.


Documentos da época relatam que mais de 70% das pessoas que foram internadas no local, sequer tinham qualquer doença mental, sendo considerado o local ideal para o envio de gays, alcoólatras, pobres, negros, silvícolas, militantes políticos, mães solteiras, mulheres estupradas, prostitutas, amantes de políticos, crianças indesejadas, mendigos, andarilhos, pessoas sem documento e até mesmo pessoas que em algum momento tiveram alguma crise nervosa ou tristeza contínua, conhecido hoje como depressão.


O terror dos inocentes já começava antes mesmo de entrar no hospital, os pacientes que vinham de outras localidades eram obrigadas a pegar o trem mais conhecido como “trem de doido a caminho do inferno”, uma viagem sem volta segundo relatos de moradores antigos da cidade, o que lembrava muito os campos de concentração nazistas. Na entrada, os pacientes eram separados por sexo, idade e características físicas, mas não pense que cada um deles recebia um tratamento humanizado com camas limpas ou banheiros higienizados, não eles dormiam sobre camas de ferro enferrujadas revestidas de capim, comiam lavagem e tomavam água de esgoto.

O hospital que tinha capacidade para 200 pacientes chegou a ter 5 mil internos no local vivendo em condições subumanas, onde ficavam por dias e noites trancafiados em celas, principalmente aqueles que eram considerados desobedientes. Não havia corpo clínico habilitado, poucos psiquiatras para atender uma legião de pessoas que lá viviam em condições inóspitas. Além do que, os responsáveis pelo tratamento dos pacientes eram treinados por agentes de segurança para evitar fugas e brigas.

O tratamento dos internos era feito por meio de terapia de choque, ducha escocesa de alta pressão, altas doses de medicação, camisa de força, tortura psicológica, abandono, além de estupros e maus-tratos. Estima-se que até o final da década de 1980, 60 mil pessoas morreram no local em decorrência não apenas dos maus-tratos recebidos como também de fome, frio e outras doenças.

O terror do Hospital Colônia não ficava restrito apenas aos vivos, nos períodos de maior lotação, em média 16 pessoas morriam por dia e por incrível que pareça o hospital lucrava com isso. Entre os anos de 1969 a 1980, mais 1.800 corpos foram vendidos para 17 faculdades de medicina do Brasil, sem que ninguém questionasse absolutamente nada, como se fosse algo normal. O mais absurdo é que quando houve um excesso de cadáveres disponíveis, os corpos acabaram sendo decompostos em ácido no pátio do próprio hospital, na frente de todos os internos, apenas com o intuito de comercializarem as ossadas. (Referência: ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro - Vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil).

Em 2001, quando foi aprovada a Lei Paulo Delgado (Lei Nº 10.216), que extinguia a internação de longo prazo, o hospital deu 154 altas e 185 dos internos remanescentes acabaram morrendo. Atualmente, há menos de 150 sobreviventes do holocausto brasileiro, sendo que todos recebem tratamento humanizado e adequado no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais – Fhemig. Estes pacientes vivem hoje no projeto Casa Lar criado para inseri-los na comunidade, que são áreas dentro do hospital que contam com cozinha, sala de TV e estrutura independente que abriga no máximo 8 pessoas, além de receberem indenização do Estado pelas atrocidades cometidas por todos os envolvidos nesta barbárie. 


Em 1996, o torreão do antigo hospital foi transformado no Museu da Loucura, em memória aos antigos pacientes que foram torturados até a morte. E para que toda a sociedade se lembrasse do episódio negro da psiquiatria no Brasil.”

Ao longo dos anos, muitas pessoas tem acreditado em teorias e na necessidade de se fazer uma higienização na sociedade, por assim dizer, uma eugenia para que somente os fortes, capacitados,  brancos e ricos, sejam valorizados.

Dentro desta proposta verificamos que com o advento da internet em 1969, no auge da guerra fria, a loucura foi sendo deixada de lado dando voz ativa a indivíduos poderosos que não mediam esforços para destruir quem não acatasse seus desmandos políticos ou sociais numa tentativa de impor a qualquer custo suas atrocidades em relação àqueles que iam contra suas demagogias.

Com a abertura comercial da internet em 1987 nos Estados Unidos e no ano seguinte no Brasil, a rede criou um novo universo, porém só se popularizou mesmo a partir da década de 1990. O mais impressionante é que até 2003 mais de 600 milhões de pessoas tinham acesso à internet, e em 2007 já eram mais de 1 bilhão e 300 milhões de pessoas conectadas, ou seja, a internet passou a ser um meio lucrativo.

O mais incrível é que além de ser lucrativa, a internet passou a ser o lugar preferido das pessoas que possuem algum tipo de distúrbio psicológico, simplesmente por acreditarem que atrás de uma tela de computador ou celular, qualquer atitude por mais insana que pareça ser jamais será descoberta, uma vez que, a rede de internet para estas pessoas é terra de ninguém.

A quantidade de pessoas que se expõe na rede apenas com a intenção de serem populares ou influenciadoras digitais é enorme. Não raramente vemos notícias de que um ou outro influenciador tirou a própria vida por não se sentir tão querido na vida real como na virtual, o que denota a falta de equilíbrio emocional de muitos indivíduos que fazem da internet seu porto seguro.

Um fato preocupante que tem surgido nos últimos anos é a rede estar sendo usada para disseminar ódio, não apenas entre pessoas comuns como também no meio político, o que nos remete ao passado, quando a sociedade em si condenava os “diferentes” como sendo pessoas indesejadas. Nem mesmo o tempo tem conseguido abrir os olhos daqueles indivíduos que insistem em negar a própria história.

Psiquiatras dizem que o negacionismo é uma defesa nos quais as pessoas tendem a usar quando se sentem ameaçadas por algo, no entanto, essa negação proporciona uma abertura maior para teorias de conspiração, que não provam absolutamente nada, apenas proporcionam mais terror e pânico.

A cobrança constante da sociedade em tentar impor certos padrões, tem feito com que pessoas ingênuas, por assim dizer, sejam usadas para promover fórmulas prontas de sucesso por indivíduos sem escrúpulos, que visualizam apenas dinheiro fácil. O que podemos constatar que há dois lados distintos, o dos carentes emocionais que acreditam em qualquer conselho de como se tornar um notável financeiramente e o outro do charlatanismo, que se aproveita da fraqueza alheia para aplicar golpes de maneira sutil, quase imperceptível.

Todavia, não há nada pior nos tempos atuais do que a glamorização da loucura como sendo algo benéfico, o que pode acontecer em qualquer lugar, tanto em uma organização como no meio político ou na internet. Indivíduos com egos inflados manipulam milhares de pessoas, apenas com o intuito de ter o poder nas mãos. Alguns indivíduos fazem o uso de promessas infundáveis, na falsa intenção de alavancar a economia de um país ou os negócios de uma empresa, pois sabem exatamente o que as pessoas desejam escutar, como é o caso de diversos estadistas cruéis que ao longo dos anos se utilizaram da mídia escrita, televisiva e da própria internet para manipular milhões de cidadãos que buscavam uma solução imediata.


A exaltação desse tipo de comportamento tem feito com que muitas  pessoas acabem sendo vítimas de suas próprias escolhas por não conseguirem enxergar o que pode estar por trás desse fato. O narcisismo de querer estar sempre em evidência mostrando aquilo que irá agradar uma parte da população pode por em risco uma comunidade toda, principalmente se o foco principal for o democídio com a intenção de eliminar da sociedade os indesejados.

Muito comum em governos extremistas que veem seus opositores como uma ameaça constante, não por assim serem de fato, mas porque na cabeça desses lunáticos sempre terá alguém conspirando contra sua vida. O perigo se agrava, quando este mesmo indivíduo se vê como um salvador da pátria e de todas as maneiras tenta se proteger dos supostos fantasmas que o atormenta, aplicando a canetada com o intuito de prejudicar aqueles que conspiram contra a sua administração ou família.

Nos casos mais extremos, a loucura pode vir acompanhada de sadismo e vingança como aconteceu no maior holocausto de todos os tempos, onde os fantasmas que atormentavam a mente do líder nazista fizeram com que ele colocasse em prática um plano mirabolante e cruel matando milhões de judeus e indesejados para supostamente criar uma raça pura.

A loucura também vem acompanhada de informações falsas, de conselhos estaparfúdios e insinuações ameaçadoras disfarçadas de moralidade e patriotismo. Não importando o contexto, desde que seja exaltado por uma minoria de seguidores e apoiadores raivosos, e caso algo saia errado basta matar os opositores, que tudo estará resolvido.

Doce ilusão de quem acredita em soluções mágicas ou imediatistas e se coloca acima de tudo e todos, pois com o tempo a vida poderá cobrar todas as atrocidades cometidas a um grupo pequeno de pessoas ou a uma grande multidão.  Quem sabe assim, a loucura poderá receber tratamento adequado e deixará de ser mais importante do que a sanidade e a empatia.

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Foi pensando nisso que a criadora do projeto decidiu oferecer alguns serviços para empresas interessadas em ter o link do seu site agregado aos artigos, bem como oferecer serviços de Copywriter, Content Editor/Writer ou Content Strategist. Para maiores informações sobre os trabalhos oferecidos pela MD Networking Publicações, bem como valores, condições de pagamento e entrega, basta enviar um e-mail, e para conhecer melhor o trabalho basta acessar os blogs  que se encontram no banner acima ou acessar o perfil e clicar sobre os links conhecendo melhor nosso portfólio de trabalho.

Aguardamos o contato de todos os interessados, a fim de que todos nós possamos fazer a diferença na vida de muitas pessoas ao redor do planeta levando conhecimento e produtos diferenciados. 


O lado podre da mendigagem


Marisa Fonseca Diniz

Há mais de 20 anos estudando o comportamento humano nas organizações empresariais e na sociedade de modo geral, ainda tem feito com que fique pasma diante do comportamento humano. A cada dia que passa é perceptível que uma boa parte das pessoas ainda acredita que a melhor forma de obter sucesso é explorando a bondade alheia.

Há diversas plataformas na internet de crowdfunding, financiamento coletivo, que tem como objetivo principal levantar recursos financeiros para a realização de projetos sociais, tecnológicos e culturais, sendo este recurso muito utilizado para alavancar investimentos às startups, que se encontram em processo inicial de funcionamento. 


As plataformas colaborativas funcionam da seguinte maneira: empreendedores/pessoas cadastram seus projetos e apresentam por meio de um texto ou vídeo os objetivos e a finalidade dos recursos financeiros a serem arrecadados, tais como o valor pretendido a ser alcançado e a data limite para a arrecadação. Compartilham a ideia nas redes sociais e profissionais, que acabam atraindo investidores e pessoas interessadas em contribuir financeiramente para que o projeto cadastrado consiga almejar a meta desejada.

A ideia é excelente para quem precisa de dinheiro rápido e sem burocracia para investir em um projeto, no entanto, há algumas pessoas que tem usado estas plataformas com outros objetivos, o que tem prejudicado os indivíduos bem intencionados. O modismo de viajar sem dinheiro tem ganhado às redes sociais, principalmente às vinculadas a uma das  maiores plataformas de vídeos, com a desculpa de ganhar curtidas e inscrições, fazendo com que o público acredite que estes indivíduos mal intencionados realmente ganham dinheiro com isso, ledo engano.

Não é raro encontrar pelas estradas do país afora aventureiros das classes sociais A e B, que se consideram aventureiros do mundo moderno dirigindo motorhomes ultramodernos viajando com o dinheiro obtido nas plataformas de crowdfunding, apenas com a desculpa de que trabalham com marketing digital, no entanto, poucos indivíduos de fato viajam como nômades digitais ou trabalham para plataformas internacionais ou ganham recursos financeiros para viajar em troca de conteúdo. 


O que muitas pessoas não sabem é que, a montagem de um motorhome sobre o chassi de uma Kombi, pick-up ou van custa em média R$ 150 mil reais, sem contar o valor do carro, montagens caseiras podem ficar em torno de R$ 20 mil reais, mas há motorhomes que chegam a custar só à montagem mais de R$ 500 mil reais, ou seja, é um lazer um tanto caro para pessoas que não estão nas classes sociais mais abastadas.

Analisando detalhadamente muitas das plataformas de financiamento colaborativo, podemos encontrar milhares de projetos com um único objetivo: turismo cultural sustentável vinculado a nada, ou seja, é apenas uma máscara para dizer que precisam curtir a vida viajando com o dinheiro alheio. É um jogo bem interessante, onde se percebe que a mendigagem virou um negócio rentável para aqueles que almejam viajar com dinheiro alheio sem se incomodar com o fato de estarem prometendo algo inexistente, na certeza de que desfrutarão o melhor sem se preocupar com nada.

No entanto, observamos que os mesmos indivíduos que criticam a mendigagem nas ruas, por acreditarem que esmolas incentivam a vagabundagem são os mesmos que largam tudo, emprego, família com um único propósito: viajar, curtir a vida adoidada dizendo aos seus seguidores que são empreendedores digitais de sucesso, porém com dinheiro alheio, apenas como o objetivo de enganar pessoas ingênuas, que acreditam em facilidades, e que consequentemente colaboram e compram produtos digitais a preço de ouro.

Diferentemente dos nômades digitais, que em geral não tem casa própria, endereço fixo e muito menos salário, os novos aventureiros são cheios de si. O roteiro de viagem não é nada minguado e muito menos possuem intenção de angariar fundos financeiros para projetos sociais ou culturais, que possa realmente favorecer terceiros, o objetivo principal na verdade é apenas desfrutar o melhor que a vida possa lhes oferecer tais como, restaurantes caros, passeios mirabolantes, festas de arromba, reformas e compra de novos motorhomes, instalação e troca de placas solares mais modernas, aluguel de airbnb, passeios de lanchas, passagens de avião, roupas caras e muita, mais muita “cara de pau” na hora de pedir dinheiro.

Tais comportamentos podem parecer irreais quando analisamos a quantidade de pessoas que moram na estrada por falta de opção de moradia, e que fazem das rodovias seu ganho pão, vendendo de tudo que se pode imaginar, artesanato, roupas usadas, comida, entre outros, além daqueles que prestam serviços por onde passam. Raros são aqueles indivíduos que aproveitam a aposentadoria ou seus ganhos financeiros mensais para passear nas férias ou nos finais de semana com a família, onde o motorhome é visto apenas como um passatempo divertido.



Os viajantes modernos das classes sociais mais altas jamais se rebaixam a fazer serviços para terceiros, isso é inadmissível, preferindo ter uma loja virtual compartilhada no perfil das mais variadas redes sociais, onde vendem roupas ou acessórios a preços exorbitantes, fora da realidade, uma maneira de angariar mais dinheiro e fazer com que os compradores façam propaganda gratuita de seus artigos pessoais com o logo de seu “vulgo projeto social”, alegando que estão trabalhando com marketing digital, quando na verdade estão apenas explorando a boa intenção alheia.  

Agora, não pensem que eles se incomodam com essa maneira fácil de ganhar dinheiro, jamais, pois não faz parte do roteiro de vida perder, apenas ganhar cada vez mais vendendo ilusões e ainda fazer o discurso de que é acessível para qualquer pessoa, que aplique o mesmo golpe, é claro.

Projetos sociais e culturais mínguam nas plataformas de financiamento coletivo por falta de colaboradores interessados em promover cultura aos mais necessitados. Excelentes projetos ficam a mercê de algum ganho financeiro, onde os idealizadores nem sempre conseguem tirar do papel o que realmente seria socialmente vantajoso para quem realmente necessita de amparo.

A mendigagem recriminada pela maioria das pessoas que condenam quem as pede, não é vista com maus olhos por aqueles que fazem dela um jogo de estratégia em benefício próprio, ora, não sejamos tão hipócritas a ponto de não perceber que este negócio só faz com que a desigualdade social cresça cada vez mais no mundo.

Enquanto tivermos pessoas mal intencionadas explorando a boa intenção alheia, continuaremos tendo pessoas bem intencionadas morrendo de fome. Não ajude um aventureiro burguês, colabore sim com quem tem projetos que realmente farão bom uso do dinheiro ajudando a diminuir a desigualdade social, cultural e tecnológica, que separa os cidadãos ao redor do mundo.

Saiba que o aventureiro moderno que pede dinheiro em plataformas de crowdfunding, não se intimida em pedir ajuda financeira de colaboradores nas redes sociais, nos chats virtuais, nas redes de bate papo, além de venderem produtos em suas lojas virtuais, porque eles sabem que o dinheiro vem fácil em troca de uma promessa que adoça a insensatez daqueles que não enxergam maldade neste tipo de atitude. 

No entanto, estes aventureiros são os mesmos que debocham da cara dos tolos que aplicam seu dinheiro em viagens que jamais realizarão na vida, recebendo em troca diversas desculpas, que vão desde a exaustiva rotina de preparar e editar vídeos de viagem até os altos custos com alimentação, combustível, pedágios e o pagamento de altas taxas nas fronteiras dos países em que passam.



Apesar de muitos destes indivíduos alegarem que estão proporcionando conteúdo de qualidade para quem não pode viajar, também são os mesmos que incentivam outras pessoas da mesma classe social a investirem seu tempo criando falsos projetos sociais e culturais no intuíto de angariar fundos financeiros e mendigando nas redes sociais, a fim de aproveitarem apenas o momento áureo a que passam.

Como dizem por aí, o mundo é dos espertos, dos trapaceiros, dos golpistas, dos mercenários e dos egoístas, pensem bem antes de investirem seu dinheiro suado em projetos de realização pessoal que não proporcionam nada de bom a ninguém, apenas inflam o ego daqueles que estão acostumados a enganar os outros usufruindo dos seus benefícios!


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Baseado no trabalho disponível em https://marisadiniznetworking.blogspot.com/2020/05/o-lado-podre-da-mendigagem.html.