MD Networking: Dezembro 2019

Depende de que lado se está da história


(Uma reflexão sobre a desigualdade social)


Marisa Fonseca Diniz



É muito comum nos dias atuais encontrarmos receitas prontas de como sair da crise financeira ou de como conseguir transformar o desemprego em um negócio próprio, porém o que muitas pessoas desconhecem é que fórmulas prontas só se adéquam a realidade das pessoas que vivem em classes sociais mais abastadas como a A e B.

O Critério de Classificação Econômica Brasil ou CCEB é um sistema de classificação de preços ao público brasileiro, que tem como objetivo ser uma forma única de avaliar o poder de compra de grupos de consumidores deixando de lado a pretensão de classificar a população em termos de classes sociais como é feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, e divide o mercado exclusivamente em classes econômicas, a saber:

Referência 2016

Além destes dados apresentados na tabela acima, o CCEB é também calculado com base em alguns atributos presentes nos domicílios e fatores relevantes ao acesso de serviços públicos e o nível de educação do responsável, que é avaliado por meio de pontos, conforme tabela abaixo:


Para o IBGE, a classificação das classes sociais segue outros parâmetros, a saber:

As classes sociais no Brasil são muito desiguais, a elite mora em casas luxuosas em bairros arborizados com asfalto, esgoto e água encanada, em geral são fazendeiros, grandes empresários, executivos de empresas multinacionais, influencers, investidores de altas quantias, funcionários públicos do alto escalão, industriais, banqueiros, artistas bem sucedidos. Viajam constantemente para o exterior a negócio, férias e possuem moradias em outros países, os filhos estudam nos melhores colégios particulares do país com mensalidades que ultrapassam os 10 mil reais mensais, estudam nas melhores universidades do Brasil e do mundo, possuem os carros mais potentes, luxuosos e blindados na garagem, alguns têm jatinhos e iates, outros preferem ir trabalhar de helicóptero particular. São atendidos nos melhores hospitais particulares do país, fazem suas refeições em restaurantes caríssimos não se importando com o preço cobrado, possuem diversos serviçais e não saem de casa sem segurança particular, ou seja, estão muito acima da realidade da maioria da população do país. O 1% mais rico do Brasil ganha 33,8 vezes mais do que os 50% mais pobres, uma vergonha em pensar que o país possui uma desigualdade tão alarmante como essa.


A classe B considerada a classe média brasileira não fica muito atrás da elite, apesar de mais de 900 mil cidadãos terem caído da classe A e B nos últimos anos devido à falta de emprego e a recessão. No entanto, a classe média brasileira ainda concentra uma parte abastada da população. Pequenos empresários, funcionários públicos, aposentados e pensionistas com ganhos acima de R$ 5 mil reais mensais, pessoas que tem rendas extras de aluguel, investimentos e bens, os filhos estudam nas escolas de renome e em universidades públicas, fazem intercâmbio no exterior, viajam pelo país, tem casa de veraneio, possuem carros e casa própria em bairros considerados seguros e que possuem saneamento básico, tem acesso fácil à cultura, duas ou três vezes por semana saem para jantar em restaurantes badalados da cidade e mesmo com a crise não tem o costume de fazer grandes cortes de gastos. Tem empregada mensalista ou faxineira, plano de saúde, seguro de vida, ou seja, tem uma vida bem confortável.

No entanto, a classe social C é para onde muitos dos indivíduos que no passado pertenciam à elite foram parar depois que perderam o status de classe A ou B. Novas adaptações tiveram que ser feitas para viverem dentro de um padrão de vida menor. Trocaram a casa própria pelo aluguel ou por um imóvel de menor valor e em bairros mais afastados do centro, o carro zero foi trocado por um carro mais velho ou preferiram virar motorista de aplicativos. A educação dos filhos ficou mais restrita as escolas particulares mais baratas em bairros mais afastados, o plano de saúde foi substituído pelos consultórios médicos populares ou por planos de saúde mais baratos, as viagens ficaram mais restritas a um final de semana, e as dívidas mais que dobraram, porém não deixam de fazer uso do cartão de crédito para suprir as necessidades diárias, mesmo não tendo dinheiro para quitá-los e não abrem mão de todas as suas antigas regalias como a compra de novos eletrônicos ou eletrodomésticos.

As pessoas pertencentes às classes sociais D e E são aquelas consideradas pobres, as da base da pirâmide, e que mais pagam imposto em comparação as demais classes. Os indivíduos da classe social D, em geral são aqueles que não tiveram a oportunidade de estudar em um colégio particular e muito menos tiveram condições de pagar um cursinho ou entrar em uma faculdade pública. Os filhos são enviados às escolas públicas para poderem ter pelo menos uma refeição ao dia, e quando adultos são aqueles que estudam em faculdades particulares graças ao Programa de Universidade para Todos – ProUni. Composta por pessoas que trabalham em subempregos, mesmo tendo superior completo muitos não conseguem ter oportunidades de trabalho condizente com a formação e experiência. A moradia pode ser emprestada por algum familiar, imóveis invadidos ou de alvenaria nas comunidades afastadas dos grandes centros urbanos. A saúde é precária, sendo dependentes exclusivamente do Sistema Único de Saúde - SUS, quando conseguem ser atendidos. Usuários ávidos do transporte público, bicicletas ou um carro muito velho e sem manutenção. Raramente se aposentam, ou seja, trabalham até morrer. A média de vida das pessoas das classes sociais D e E está em torno dos 55 anos de idade, muito diferente da perspectiva de vida das classes sociais A, B e C, segundo dados oficiais.

A classe social E é aquela formada de pessoas que em geral já perderam tudo, moram em palafitas, casas de madeirite ou papelão nos morros e ruas do país, sem nenhum tipo de saneamento básico. Composta por pessoas que vivem exclusivamente de bicos sem ter uma renda fixa por mês, raramente possuem alimento na mesa todos os dias, as crianças nem sempre conseguem vagas em creches ou em escolas públicas, e quem consegue uma vaga acaba desistindo dos estudos devido à desnutrição e a obrigatoriedade de trabalhar cada vez mais cedo para poder ajudar na renda familiar. A saúde pública é inacessível àqueles que não têm endereço fixo, aumentando gradativamente as doenças infecciosas. Não possuem acesso à aposentadoria, alguns vivem de recursos federais, como exemplo a bolsa família. Compostas por pessoas marginalizadas pela sociedade e pelo governo. Os jovens morrem cada vez mais cedo devido a violência nos locais em que moram ou frequentam.

É insano dizermos que no Brasil não há distinção de classes sociais, preconceito ou fome, quando não nos falta nada. Infelizmente, as pessoas desde pequenas são incentivadas a odiar os indivíduos menos abastados, apenas pelo prazer de se acharem superiores aos demais. A pobreza é dita como algo contagioso, como se a cor da pele manchasse a mão de um rico.


Há uma falta de bom senso e empatia rondando as classes sociais mais ricas, que exploram os mais pobres em prol a sua ambição por dinheiro. Dinheiro este que por sinal não pode ser carregado no caixão, mas que é disputado a tapas pelos herdeiros. Não é à toa que até Jesus Cristo disse: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Pois, é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.” Lucas 18, versículos 24 e 25.


Políticas e mais políticas são criadas contra as classes sociais mais baixas, o código penal é exclusivamente aplicado contra os mais pobres, já que os que estão no topo da pirâmide são os responsáveis por criarem as leis. A desigualdade social é um grande abismo no desenvolvimento do país. O Brasil é considerado um país pobre, já que os 64% da população encontram-se na base da pirâmide.

Muitas pessoas ainda não se deram conta que, quando apoiam políticas de reforma trabalhista e da previdência social, não estão prejudicando os mais pobres, e sim eles mesmos, pois os mais pobres não trabalham com carteira profissional assinada e consequentemente não se aposentam, assim como os mais ricos não estão preocupados em se aposentar, e sim em juntar riquezas, que é o que os mantêm no topo.

A ignorância daqueles que elegeram uma pessoa que há anos se mantêm na política juntamente com os filhos e nunca fizeram absolutamente nada pelo povo, nos faz pensar que sejam pessoas obtusas em relação aos problemas econômicos, políticos e sociais do país. Um cidadão que é a autoridade máxima de um país e que não representa os interesses da população a nível global, e vende  o patrimônio e  as riquezas do país em troca de favores é alguém que não nos representa. Não saber se comportar como um líder político preferindo agir como uma criança mimada dizendo em rede social que é perseguido por seus adversários e que todos fazem complô contra ele é de se pensar que sofra de paranoia. Dizer a todos os cidadãos que governa em nome de Deus é com certeza uma pessoa que desconhece a verdade bíblica, pois Jesus Cristo não andava com corruptos e muito menos com os hipócritas, preferindo andar ao lado dos pobres e injustiçados. Muito diferente do que apregoa favorecendo exclusivamente os mais ricos com a desculpa de que os mesmos pagam altas cargas tributárias, sendo os responsáveis por gerar riquezas no país. Acredito que tenha um problema sério de interpretação de dados ou tenha fugido das aulas de história, pois os que mais enriquecem o país são justamente aqueles que pagam mais impostos, ou seja, os pobres.

Ora, não sejamos tão cegos a ponto de não perceber que tudo que o governo fala não passa de fake news. Escravizar e explorar os mais pobres tirando os direitos dos mesmos apenas com o desejo de enriquecer os mais ricos é a maneira mais esdrúxula de se governar. A maneira mais inteligente de governar seria adotar uma política que favorecesse todos os cidadãos oferecendo oportunidades para terem uma vida mais digna e contribuindo dessa maneira com o crescimento uniforme da economia.


Subtrair direitos dos cidadãos é a maneira mais autocrática que um  governo possa fazer para implantar um sistema autoritário em um país. Nem de direita e nem de esquerda deve-se permitir que um governo implante estas decisões, porque depois de perdido os direitos nenhum cidadão conseguirá voltar a trás ao sistema democrático.

Aqueles que atualmente apoiam tais decisões por se considerarem pessoas conservadoras, só perceberão depois de muito tempo, que foram corresponsáveis pela implantação de um sistema autoritário em que eles mesmos serão lesados por esta ideologia, assim como aconteceu nos governos de extrema direita e esquerda na Europa no século passado, e que perpétua até hoje no mundo.

Apoiadores de um governo autoritário aprendam:


Não dê migalhas aos mais pobres,

Dê oportunidades.

Não dê conselhos de como juntar um milhão,

Dê condições de terem uma vida digna.

Não dê fórmulas prontas de sucesso

Aprenda com eles como ser feliz.

Não os chame de vagabundos,

Aprenda com eles o que é ser solidário.

Algo que as classes sociais mais elevadas deveriam aprender.

Qual o lado da história você prefere ficar?

O da consciência limpa ou o lado que ajuda a matar diversos inocentes, apenas por eles serem pessoas pobres financeiramente?

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