Marisa Fonseca Diniz
Nos últimos dias temos acompanhado diversas manifestações
populares em diversos estados brasileiros em defesa da democracia conquistada a
duras penas. Muitos cidadãos podem discordar, mas o fato é que ninguém está
disposto a abdicar a democracia, apesar da minoria, a elite, não querer renunciar
às suas regalias.
A democracia brasileira não foi conquistada de uma só vez;
ela foi construída e reconquistada por meio de grandes lutas populares,
pressões sociais e transições políticas após longos períodos de ditadura. A
democracia brasileira é uma construção histórica recente e marcada por diversas
rupturas.
Os principais períodos políticos no Brasil dividem-se entre
a Primeira República e a República Oligárquica (1889–1930) com
voto restrito, a Era Vargas e o Estado Novo Autoritário
(1930–1945), a República Populista (1945–1964), a Ditadura
Militar (1964–1985) e a Nova República (1985–presente),
consagrada pela Constituição de 1988.
A Primeira República
(1889-1930) e, em especial, a República Oligárquica (1894-1930)
foram dominadas pelas elites agrárias, com destaque para os grandes fazendeiros
de café de São Paulo e de leite de Minas Gerais. Os principais pilares do
Domínio Oligárquico eram os seguintes:
·
Política do Café com Leite:
revezamento do poder presidencial entre os partidos republicanos paulistas
(PRP) e mineiro (PRM).
·
Política dos Governadores:
aliança entre o presidente da República e os governadores estaduais para
garantir apoio mútuo no Congresso.
·
Coronelismo e Voto de Cabresto: uso
de coação, violência e troca de favores por chefes locais (coronéis) para
forçar a população a votar em candidatos indicados pela elite.
A Era Vargas, o regime ditatorial do Estado
Novo (1937-1945) foi uma ditadura centralizada por Getúlio Vargas
com o forte apoio dos militares. Embora esse regime tenha sido negociado
com as elites econômicas, principalmente pelos industriais, o regime era
dominado pelo poder pessoal do presidente, que enfraqueceu os partidos e os
estados. Marcado pela insustentabilidade interna e externa do regime ditatorial
com a pressão interna e o fim da Segunda Guerra Mundial que acabou
enfraquecendo o regime.
As principais características do Poder no Estado Novo eram
as seguintes:
·
Centralização Política: o
Congresso Nacional foi fechado, as eleições suspensas e os governadores
passaram a ser nomeados diretamente por Vargas.
·
Relação com a elite brasileira: a
antiga elite agrária do café perdeu o controle hegemônico que tinha na
República Velha dando lugar a crescente elite industrial que apoiava o governo
em troca de incentivos econômicos e da criação de estatais e leis de proteção
ao mercado interno.
·
Tutela dos Trabalhadores: em
vez de ser dominado por classes sociais ou elites específicas, o Estado usou o
populismo e órgãos da imprensa (DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda) e
a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para controlar os operários e a
pressão das elites tradicionais.
·
Apoio Militar: os
militares foram a base de sustentação do regime autoritário até 1945.
·
O fim da Segunda Guerra Mundial: O
Brasil travou uma guerra na Europa contra o nazifascismo ao lado dos Aliados
(através da FEB). Tornou-se um grande contrassenso, onde o país enviou soldados
para defender a democracia no exterior enquanto mantinha uma ditadura interna.
·
Pressão popular e o "Manifesto dos
Mineiros" (1943): Cresceu a oposição ao regime por parte de
intelectuais, advogados, estudantes e setores liberais que libertaram o fim da
censura e o retorno da democracia.
·
Abertura política e o
"Queremismo": Antes de cair, o próprio Vargas precisou
ceder e convocou eleições presidenciais para dezembro de 1945. Ao mesmo tempo,
surgiu o movimento queremista (Queremos Getúlio), que defendia uma
Assembleia Constituinte com Vargas no poder.
CONTEXTO
A redemocratização de 1945 foi marcada pelo fim do Estado
Novo, pela deposição de Getúlio Vargas, pelo surgimento de novos partidos
políticos, tais como o PSD, UDN e PTB.
Principais fatores do contexto:
·
Fim do Estado Novo:
encerramento da ditadura de Getúlio Vargas (1937- 1945) sob pressão do fim da
Segunda Guerra Mundial e de articulações militares.
·
A deposição militar (outubro de 1945): Com o
recebimento de que Vargas tentasse se perpetuar no poder ou controlar o
processo de transição, os chefes militares (liderados por figuras como Eurico
Gaspar Dutra e Góes Monteiro) deram um golpe e o de constituído em 29 de
outubro de 1945.
·
Reorganização Partidária:
legalização e criação de grandes legendas como a UDN (Liberal), o PSD (conservador
e apoio governista) e o PTB (trabalhista), além do retorno do Partido Comunista
Brasileiro (PCB).
·
A transição: José
Linhares (presidente do Supremo Tribunal Federal) assumiu internamente para
organizar as eleições livres.
·
Eleições de 1945: pleito
nacional que elegeu Eurico Gaspar Dutra e formou a Assembleia Constituinte.
CONQUISTA
A principal conquista da Redemocratização de 1945 e o fim
do Estado Novo foi o restabelecimento do regime democrático e o fim da ditadura
de Getúlio Vargas, materializado na Constituição de 1946, restabelecendo as
liberdades civis, o pluripartidarismo e os direitos de voto.
Principais conquistas e avanços:
·
Nova Constituição (1946):
Promulgada em 18 de setembro de 1946, a Carta de 1946 devolveu o caráter
democrático e republicano ao país. O texto promulgado que restabeleceu o Estado
de Direito, a independência dos poderes e as liberdade individuais, embora
mantivesse restrições como o voto vedado aos analfabetos.
·
Fim da censura e liberdade de expressão:
Abolição dos mecanismos de controle à imprensa, como o Departamento de Imprensa
e Propaganda (DIP).
·
Separação e independência dos poderes:
Restauração do equilíbrio e da autonomia entre o Executivo, o Legislativo e o
Judiciário.
·
Pluralidade partidária e eleições diretas:
Retorno dos partidos políticos (como PSD, UDN, PTB e PCB) e realização de
eleições livres para presidente, governadores, prefeitos e parlamentares.
·
Garantias individuais e civis:
Restabelecimento do habeas corpus , igualdade de todos perante a lei,
liberdade de crença e culto religioso.
·
Autonomia federativa:
Devolução da autonomia política aos estados e municípios.
LIMITE
Esse período democrático durou até 1964, quando foi
interrompido por um novo golpe militar. O limite da
Redemocratização de 1945 —entendida como o período de transição e o alcance dos
avanços democráticos após a queda do Estado Novo (1937–1945) — é marcado por contradições
institucionais, exclusões sociais e instabilidade política que culminaram
no golpe civil-militar de 1964.
Os principais limites desse processo foram:
·
Voto feminino:
Embora o direito de voto às mulheres já estivesse garantido desde o Código
Eleitoral de 1932, a estrutura de participação continuava restrita às elites
letradas.
O limite da estrutura sindical e corporativa
·
O novo regime democrático desmantelou a
ditadura de Getúlio Vargas, mas preservou a estrutura sindical corporativa
herdada do Estado Novo (através da CLT e do atrelamento dos sindicatos ao
Estado). Os governos frequentemente intervinham em sindicatos e reprimiam
greves consideradas "ameaças" à ordem econômica ou influenciadas pela
esquerda.
O limite do anticomunismo e a Guerra Fria
·
Ilegalidade do PCB: Em
1947, logo no início do governo de Eurico Gaspar Dutra, o registro do Partido
Comunista Brasileiro (PCB) foi cancelado e os parlamentares comunistas tiveram
seus mandatos cassados, demonstrando a fragilidade da tolerância ideológica.
·
Alinhamento externo e repressão interna: A
polarização da Guerra Fria limitou a soberania e a pluralidade de ideias,
rotulando movimentos de reforma social como subversão.
A fragilidade institucional e a tentativa de
golpe
·
A chamada Quarta República (1946–1964) foi
marcada por crises profundas e constante tutela militar sobre a política civil.
·
O "limite temporal e prático"
definitivo dessa redemocratização veio com a ruptura de 31 de março de 1964,
quando as Forças Armadas, reforçadas por setores conservadores da sociedade
civil e empresariais, derrubaram o presidente João Goulart, encerrando a
experiência democrática de 1945 e inaugurando a ditadura militar (1964–1985).
A REDEMOCRATIZAÇÃO
DE 1985–1988 (Fim da Ditadura Militar)
CONTEXTO
O regime militar, instalado pelo golpe de 1964, governou o
país por 21 anos. Na virada dos anos 1970 para 1980, o governo enfrentou uma
grave crise econômica com hiperinflação, o aumento da dívida externa e a forte
pressão popular culminando dessa maneira a posse de governos civis. O processo
de abertura política foi lento, gradual e seguro, marcado pela
Lei da Anistia de 1979 e pelo movimento popular das Diretas Já
(1983-1984). Em 1985, Tancredo Neves foi eleito por voto indireto, colocando
fim ao regime militar, embora quem tenha fortalecido a presidência tenha sido o
vice, José Sarney.
Contexto de Crise da Ditadura Militar
· Crise Econômica: inflação alta, crescimento da dívida externa e queda no poder de compra perderam a legitimidade do regime na década de 1980.
·
Abertura Lenta e Gradual: iniciada
no governo de Ernesto Geisel por volta de 1974, uma transição controlada
permitiu o retorno gradual dos debates políticos.
·
Lei da Anistia (1979): perdoou
crimes políticos de ambos os lados, permitindo o retorno de exilados e a
reorganização partidária.
·
Movimento Diretas Já (1983-1984):
milhões de brasileiros foram às ruas exigindo eleições diretas para presidente
da República, embora a emenda tenha sido derrotada no Congresso Nacional.
Transição e Fim do Regime (1985)
·
Colégio Eleitoral: com
a exclusão das eleições diretas, a sucessão de forma indireta.
·
Eleição de Tancredo Neves: Tancredo
Neves venceu Paulo Maluf em janeiro de 1985 pela Aliança Democrática.
·
Posse de José Sarney:
Tancredo adoeceu e faleceu antes de assumir, fazendo com que seu vice, José
Sarney assumisse a presidência em 15 de março de 1985 e encerrando assim o
governo militar.
A Constituição de 1988
·
Assembleia Constituinte: instalada
em 1986, elaborou um novo pacto jurídico para o país.
· Direitos Fundamentais: promulgada em 5 de outubro de 1988, consagrou o voto direto, a liberdade de expressão, os direitos sociais e a divisão democrática dos poderes. Garantindo aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade dos direitos à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.
CONQUISTA
O processo culminou na posse do presidente civil, José
Sarney em 15 de março de 1985, após a morte do eleito Tancredo Neves e na
promulgação da chamada "Constituição Cidadã" em 5 de outubro de 1988.
Fases e Marcos do Período
·
Abertura Lenta e Gradual: iniciada
em 1974 pelo governo de Ernesto Geisel, permitindo uma transição controlada
pelos militares.
·
Lei da Anistia
(1979): Promulgada por João Figueiredo permitiu o retorno de exilados
políticos, mas também garantiu impunidade a agentes do Estado envolvidos em
crimes de tortura.
·
Campanha Diretas Já
(1983–1984): movimento popular histórico que tomou as ruas do país exigindo o
direito ao voto direto para presidente da República, embora a Emenda Dante de
Oliveira tenha sido derrotada no Congresso Nacional.
·
Colégio Eleitoral de 1985: elegeu
indiretamente Tancredo Neves para a presidência, tendo José Sarney como vice,
que assumiu a presidência logo após o falecimento de Tancredo.
Principais Conquistas da Constituição de 1988
· Voto Direto e Universal: garantia de eleições diretas para todos os cargos do Executivo e Legislativo, incluindo o direito de voto para analfabetos e jovens de 16 a 17 anos.
·
Criação do SUS: estabeleceu
o Sistema Único de Saúde, garantindo atendimento médico universal e gratuito
financiado pelo Estado.
·
Liberdade de Expressão: fim
da censura prévia aos meios de comunicação, à arte e à imprensa, assegurando o
pluralismo político.
· Direitos Sociais e Trabalhistas: ampliação de garantias como a licença-maternidade de 120 dias, 13º salário, seguro-desemprego e proteção aos direitos indígenas e quilombolas.
LIMITE
Os Limites da Transição
- Transição
pelo Alto: conduzida por elites políticas e militares
do próprio regime anterior, sem uma ruptura total ou punição aos crimes de
tortura, crimes pela ditadura.
- Eleição
Indireta Inicial: a exigência popular das Diretas Já em
1984 não foi atendida de imediato, ocorrendo o primeiro pleito
presidencial direto apenas em 1989.
- Crise
Econômica: o período foi delimitado por graves crises
de hiperinflação e pela pesada herança da dívida externa deixada pelos
generais.
NOVA
REPÚBLICA (1989 – ATUAL)
CONTEXTO
A partir de 1989, o Brasil consolidou a redemocratização
com a primeira eleição direta para presidente, a Constituição de 1988, a
estabilização econômica pelo Plano Real, além de crises políticas, impeachments
e a forte polarização.
Marcos Políticos e Presidentes
(1989–Atual)
Fernando Collor de Mello (1990–1992): primeiro
presidente eleito por voto direto após a ditadura. Sofreu impeachment por um
processo de corrupção.
Itamar Franco (1992–1994): vice
que assumiu após a saída de Collor. Lançou a base do Plano Real com seu
ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.
Fernando Henrique Cardoso (1995–2002): implementou
o Plano Real, conteve a inflação crônica, promoveu privatizações e se reelegeu em
1998.
Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2010):
primeiro presidente de origem sindical, focou em programas sociais de
transferência de renda como o Bolsa Família e crescimento econômico.
Dilma Roussef (2011–2016): primeira
mulher presidente do país, reeleita em 2014, mas afastada por impeachment em
2016 devido a pautas fiscais.
Michel Temer (2016–2018): vice
que substituiu o término do mandato de Dilma, implementando reformas
trabalhistas e o teto de gastos.
Jair Bolsonaro (2019–2022):
eleito em um cenário de forte oposição ao sistema tradicional e polarização
ideológica.
Luiz Inácio Lula da Silva (2023–presente):
retornou ao cargo para o seu terceiro mandato presidencial.
Principais Transformações e Desafios
· Estabilidade Econômica: O Plano Real (1994) trocou moedas sucessivas e acabou com a hiperinflação histórica.
·
Crises e Corrupção:
Investigações de grande repercussão, como o Mensalão e a Operação
Lava Jato, redesenharam a confiança na classe política.
·
Polarização Atual: O
período recente é marcado por intensa divisão social, debates institucionais e
os desafios contínuos de combate à desigualdade estrutural.
Anos de batalha pela democratização do país podem estar ameaçados
quando uma parte da população defende a elite política no poder, onde as ideias
ditatoriais são sempre bem-vistas por aqueles que deveriam ter consciência de
classe e entender que todos que dependem da própria mão de obra para se
manterem financeiramente são considerados classe trabalhadora, ou seja, 90% da
população brasileira, incluindo nesse montante os aposentados.
Apenas cerca de 10% da população brasileira é
considerada rica (aproximadamente 21,2 milhões de pessoas), os milionários somam
cerca de 386 mil pessoas (cerca de 0,18% da população adulta), e os bilionários
representam um grupo seleto de 255 pessoas (menos de 0,0001% da
população).
Segundo dados da Forbes Brasil, do Jornal O Globo e do IBGE
a distribuição de dinheiro entre os mais ricos do país é a seguinte:
Ricos (Top 10% da população)
- Representam
cerca de 21,2 milhões de brasileiros.
- Concentram
aproximadamente 59% a 70% da renda e da riqueza nacional do país.
- Para
entrar no grupo do 1% mais rico, a renda média mensal individual
costuma superar a faixa de R$ 20 mil a R$ 27 mil, e esse grupo isolado
detém cerca de 27% a 37% de todo o patrimônio do país.
- De
acordo com levantamentos de mercado baseados em dados do IBGE, o segmento
da Classe A abrange aproximadamente 4% a 4,4% da população brasileira.
- A
classe A possui uma renda mensal domiciliar superior a R$ 26.000
(ou acima de 20 salários mínimos, dependendo do indicador
utilizado).
Milionários
- O
Relatório de Riqueza Global da UBS aponta que o Brasil possui
aproximadamente 386 mil pessoas com patrimônio líquido superior a US$
1 milhão (cerca de R$ 5,5 milhões).
- Isso
equivale a menos de 0,2% da população adulta do país.
- O
Brasil lidera esse número na América Latina, com milhares de novos
milionários adicionados anualmente.
- Os
milionários são dos seguintes setores da economia: Financeiro e Investimentos,
Indústria e Manufatura, Bens de Consumo, Alimentos e Bebidas, Tecnologia e
Setor Digital, Varejo, Cosméticos e Saúde.
Bilionários
- O
país conta com 255 bilionários (em reais) com fortunas acumuladas
no topo da pirâmide.
- Esse
número representa uma fração ínfima (menos de 0,0001%) de mais de
203 milhões de habitantes.
·
Os bilionários se concentram principalmente nos
setores de Finanças (bancos e mercados de capitais), Indústria
(com destaque para a WEG), Investimentos, Alimentos/Bebidas e Varejo.
Fontes de Pesquisa: Arquivo do Senado Brasileiro, Forbes, O
Globo, Portal Câmara dos Deputados, IBGE.
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